Diocese de Santo André

Como evangelizar os jovens?

“A juventude é o futuro da Igreja”. Essa frase é muito conhecida nas comunidades católicas, mas também muito problemática. Em primeiro lugar, porque muitas vezes ela retrata a situação de muitas comunidades que são maciçamente frequentadas por adultos e idosos, e geralmente mais mulheres do que homens também. Em segundo lugar, isso também tem por trás uma realidade bastante presente em nossas comunidades: os jovens não são ouvidos nas decisões pastorais, os leigos em geral também são pouco ouvidos, mas os jovens são menos ouvidos ainda. E essas não são constatações minhas, é só nos lembrarmos das reflexões da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos de 2018, que teve como tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

A primeira coisa que precisamos entender para mudar esse estado de coisas é que os jovens não são o futuro, mas o presente da Igreja. E não só os jovens, mas também as crianças, os adolescentes, os adultos e os idosos. Toda pessoa humana, independentemente da sua idade, sexo, cor de pele, situação econômica, posições políticas, filosóficas e até teológicas, são filhos de Deus e, se batizados, membros da Igreja. A mensagem do Evangelho deve alcançar a todos os que já são membros da Igreja pelo Batismo, e todos os que não são pela missão evangelizadora da Igreja em saída, expressão tão querida pelo Papa Francisco.

A segunda coisa muito importante é que, para que a mensagem do Evangelho chegue aos corações jovens, ela precisa falar a sua linguagem e tocar na sua realidade. E o que significa isso? Em primeiro lugar, de que faixa etária específica estamos falando? Para o Estatuto da Juventude, Lei 12.852 de 05.08.2013, são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 e 29 anos de idade. Essa especificação nos ajuda bastante, pois podemos refletir sobre a realidade de uma pessoa nessa faixa etária. Aos 15 anos, espera-se que a pessoa esteja na primeira série do ensino médio, são os últimos três anos da sua educação básica, muitas coisas estão acontecendo na vida desse jovem adolescente. Além disso, a partir dos 14 anos de idade a Lei 10.097 de 19.12.2000 permite que esse adolescente possa ser contratado como menor aprendiz. Dependendo da situação financeira da família, muitos jovens precisam enfrentar a dura rotina de estudos e trabalho. Não que seja necessariamente ruim, muito pelo contrário, até ajuda na formação de um caráter responsável e autônomo, mas não se pode negar que há impactos na vida dessa pessoa.

Aos 18 anos, tendo terminado o ensino médio, o jovem se depara com algumas questões, que inclusive já lhe foram postas antes. Vou continuar estudando para ter uma profissão? Busco um curso técnico ou uma graduação? Se ainda não teve a oportunidade ou não precisou trabalhar, terei que conciliar os estudos com o trabalho? Ou só estudarei, ou só trabalharei? Muitas pesquisas mostram também que a juventude brasileira apresenta um fenômeno chamado de “nem, nem”, nem trabalha, nem estuda. O mercado de trabalho está cada dia mais competitivo, por mais que as oportunidade de se fazer um curso técnico ou uma graduação tenham se ampliado nos últimos anos, a concorrência também é gigantesca, e nem sempre a educação básica lhes dá um preparo necessário para concorrer a uma vaga, e para concluir o curso. O índice de desistência desses cursos é tão expressivo quanto os índices de evasão escolar.

Mas é claro que não podemos nos lembrar apenas do aspecto social da vida de um jovem. Ele também passa por questões internas de extrema importância. A começar pela formação da própria identidade. Na infância, os filhos querem ser como os seus pais, que são para eles heróis. Conforme vem chegando a adolescência, a busca pela autonomia ultrapassa questões práticas da infância como comer sozinho, tomar banho sozinho, escolher as próprias roupas etc. A adolescência e a juventude trazem a busca da autonomia do pensamento, e nesse sentido a integração em grupos é fundamental, pois um paradoxo dessa fase da vida humana é que nós buscamos grupos aos quais devemos nos adequar e pensamos assim estarmos exercendo nossa liberdade. Enquanto seguir os princípios familiares traz uma sensação de repressão.

E de forma alguma se pode esquecer das questões internas que envolvem a afetividade e a sexualidade humana. São coisas bem distintas, mas também muito próximas e fundamentais para a vida humana. São duas dimensões humanas presentes em todas as etapas da vida de uma pessoa, mas que apresenta questões específicas em cada uma dessas etapas. Em geral, passada a fase da adolescência em que o corpo se modifica consideravelmente, tanto para os homens quanto para as mulheres, ficam as questões emocionais que tocam muito no seu psicológico. Muito além das relações interpessoais afetivas com os pais, irmãos e amigos, é muito presente e forte o desejo de relações interpessoais mais íntimas, o namoro, e geralmente as questões da sexualidade se apresentam.

Enfim, são muitas as questões que o jovem precisa enfrentar nessa sua etapa da vida: profissão, trabalho, namoro, sexualidade, e tantas outras que não foram citadas aqui. A todas essas questões a doutrina católica tem as suas respostas, inspiradas na Sagrada Escritura, na Sagrada Tradição e no Sagrado Magistério, tripé da fé católica. É claro que não são respostas específicas para indivíduos específicos, mas a perspectiva da Igreja, que sempre aprendeu de seu Divino Mestre, de sua Santíssima Mãe e de tantos Santos, traz muitas luzes para a vida dos jovens e das pessoas de todas as idades. Portanto, a tarefa dos evangelizadores dos jovens é buscar inspiração no grande tesouro da Igreja Católica. Ao contrário do que muitos dizem, a mensagem da Igreja não está ultrapassada e não é retrógrada. Mas, se isso é verdade, também é verdade que muitas adaptações devem ser feitas, não no conteúdo do Evangelho, isso jamais, mas no formato da sua apresentação. Padre João Leão Dehon, fundador da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus dizia: “Para tempos novos, obras novas”.

Muito já tem sido feito, louvado seja Deus, mas há coisas que ainda podem ser feitas. Uma coisa importante que os grupos de jovens deveriam entender é que nem todos os jovens gostam das mesmas coisas. Parece algo óbvio, para alguns, mas nem todos levam em conta isso. Muitas comunidades priorizam ter apenas um grupo de jovens numeroso, mas que acaba impondo uma única forma de espiritualidade e de discurso. Isso vai contra a tradição católica, é só termos como exemplos as famílias religiosas: não seria mais fácil ter um único instituto de vida consagrada para homens e outro para mulheres na Igreja? Assim não teria tantas congregações se extinguindo por falta de vocações. Mas o bonito da Igreja é justamente acolher as várias manifestações de carismas e espiritualidades. Portanto, acredito que seria bem melhor termos mais opções de espiritualidades nos grupos de jovens nas comunidades, grupos que seguem a inspiração da Renovação Carismática, mas também grupos de jovens que rezam em latim, e há muitos jovens preferindo rezar assim, além de grupos que não rezam nem na língua dos anjos e nem em latim, mas simplesmente em português mesmo.

A internet e as redes sociais são os grandes campos de evangelização do século XXI. Graças a Deus já existem muitos sites, páginas do Facebook, canais no YouTube e perfis no Instagram que promovem a evangelização. Mas, por incrível que pareça, nem só de redes sociais vivem os jovens de hoje. Eu sou professor de filosofia no ensino médio, e vejo, por exemplo, como os jovens gostam de filmes, séries, games e mangás. Por que não investir em produções profissionais nessas áreas do audiovisual? Muitas vezes, ou essas produções não existem ou são muito amadoras. Os efeitos especiais de um filme de heróis produzidos pela Marvel ou pela DC atraem muito mais, do que os filmes que contam as histórias dos santos. Mas não devia ser assim, os olhos e os corações dos jovens deviam ser atraídos pela mensagem libertadora do Evangelho, muito mais do que a mensagem da indústria cultural que está longe de querer elevar a vida humana.

Em suma, para evangelizar os jovens é preciso: 1) considerá-los o presente da Igreja, destinatários da missão evangelizadora; 2) levar em conta as suas dimensões social e pessoal e todas as questões que elas apresentam; 3) investir muito no uso das novas tecnologias e recursos digitais para a divulgação da mensagem cristã católica.

* Artigo por Rafael Ferreira de Melo Brito da Silva

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