A Diocese de Santo André viveu, na tarde de domingo, 15 fe março, a Caminhada Diocesana pela Vida das Mulheres, iniciativa que reuniu participantes de diferentes paróquias, pastorais e movimentos em um gesto público de oração, reflexão e conscientização diante da violência sofrida por tantas mulheres. Com a presença do bispo diocesano, Dom Pedro Carlos Cipollini, que fez todo o percurso, além de padres, diáconos e leigos, a caminhada foi marcada pela meditação das sete dores das mulheres, refletidas ao longo do trajeto até a Catedral Nossa Senhora do Carmo.
A concentração aconteceu na Matriz de Santo André. De lá, a caminhada seguiu pelas ruas da cidade em clima de oração e escuta. Durante o percurso, cada parada trouxe uma dor concreta vivida por tantas mulheres: a violência dentro de casa, o medo e o silêncio, o corpo violado, o feminicídio, a necessidade de a Igreja ser casa segura, a indiferença da sociedade e a esperança que nasce da fé e do compromisso com a vida.
Ao dar início à caminhada, Dom Pedro ressaltou a importância de a Diocese se unir a essa causa, mesmo diante de uma realidade tão ampla e dolorosa. Ao longo do percurso, ele recordou que toda iniciativa de conscientização tem valor e pode ajudar a transformar mentalidades. O bispo afirmou que aquele momento significava muito por representar o começo de uma tomada de consciência sobre a dignidade da mulher. Segundo ele, “essa caminhada tão bonita e participativa significa muito, porque é o início de uma conscientização a respeito do valor da vida das mulheres”.
Dom Pedro também observou que a violência contra a mulher não pode ser vista como algo normal e insistiu na urgência de uma mudança cultural. Para ele, essa transformação passa pela educação, pela família, pela escola e também por iniciativas públicas que denunciem as agressões e promovam a valorização feminina. Em sua reflexão, recordou ainda que a Igreja assume essa defesa porque ela nasce do próprio projeto de Deus: “A Igreja toma a iniciativa de defender as mulheres porque Deus defende as mulheres. Ele criou a mulher e o homem à sua imagem e semelhança”.
Ao tratar das raízes dessa violência, o bispo chamou atenção para a mentalidade machista ainda presente na sociedade, que reduz a mulher a objeto ou posse. Nesse sentido, reiterou que a fé cristã não sustenta qualquer lógica de dominação, mas proclama a igual dignidade entre homem e mulher, chamados ao respeito mútuo e a relações marcadas pelo amor verdadeiro, que é doação, e não posse.
Entre as participantes, Maria Carolina, do Conselho Feminino da Diocese de Santo André, sublinhou o significado eclesial da iniciativa. Segundo ela, “estamos aqui nessa caminhada em defesa das mulheres, que é tão importante para a conscientização”. Maria Carolina também recordou que a presença da Igreja nesse debate é necessária, sobretudo porque ajuda a sociedade a refletir sobre a dignidade feminina à luz de Maria, mãe de Jesus.
Também presente, Maria Cândida de Paula Tomaz de Souza, da Pastoral Afro-brasileira do Regional Sul da Diocese de Santo André e da Comissão Justiça e Paz, reforçou o papel essencial das mulheres na vida e na sustentação das comunidades. Em sua fala, lembrou que a presença feminina atravessa a história da Igreja em serviços muitas vezes silenciosos, mas fundamentais. Para ela, “se a gente pensar em tirar a mulher de dentro da Igreja, a Igreja se esvazia, porque a maioria das mulheres é que sustentam a Igreja desde muito tempo”.
Maria Cândida também chamou atenção para a necessidade de ampliar a presença feminina nos diversos serviços e ministérios eclesiais confiados aos leigos. Sua reflexão apontou para uma realidade conhecida por muitas comunidades: a mulher está presente, serve, organiza, acolhe, sustenta, mas nem sempre tem sua contribuição reconhecida com a devida visibilidade.
Outra voz ouvida durante a caminhada foi a de Clara Cavinatto, catequista e integrante do Conselho Feminino. Ao refletir sobre a contribuição da mulher para a vida da Igreja, ela afirmou que “a mulher traz muita força. A mulher traz muita experiência dentro do lar e fora dele, para dentro da Igreja”. Para Clara, esse olhar concreto sobre a vida das mulheres ajuda a compreender a urgência do tema tratado pela caminhada.
Ela também destacou que a própria comunidade eclesial precisa se posicionar diante das violências que atingem mulheres dentro e fora de suas casas. Em sua fala, recordou que muitas dessas agressões permanecem escondidas, e nem sempre as vítimas conseguem reconhecer que estão sendo violentadas. Por isso, disse, a conscientização é decisiva: “É hora agora de todos tomarem consciência e saberem que podemos falar. Temos com quem contar”. Na mesma linha, reforçou a disponibilidade do Conselho Feminino para acolher quem precisa de ajuda: “O Conselho Feminino Diocesano está à disposição de quem precisa. Estamos aqui para levantar a voz da Igreja por essa causa tão urgente”.
Ao final do percurso, os fiéis seguiram para a Catedral Nossa Senhora do Carmo, onde foi celebrada a Santa Missa de encerramento. Na homilia, Padre Jean Rafael, cura da cetadral, retomou o sentido da caminhada à luz do Evangelho do cego de nascença e associou a ação libertadora de Jesus à necessidade de abandonar toda forma de cegueira diante das dores humanas. Em um dos trechos mais incisivos, afirmou: “Em nossa caminhada diocesana em defesa da vida contra o feminicídio, queremos proclamar e conclamar esta realidade de que as normas e leis que apenas criam um sistema de autoproteção opressor sobre a natureza feminina não devem existir”.
O sacerdote também recordou que a dignidade da mulher está inscrita no próprio gesto criador de Deus e foi reafirmada na encarnação do Filho. Ao falar sobre isso, disse: “Deus, ao querer vir ao mundo, quis vir ao mundo por meio de uma mulher”. A partir dessa reflexão, convidou a assembleia a rever atitudes, estruturas e visões que ainda impedem que a mulher seja plenamente respeitada em sua dignidade.
Na parte final da homilia, Padre Jean reforçou que a fé deve conduzir a uma visão mais profunda da realidade, marcada pela bondade, pela justiça e pela verdade. E conclamou homens e mulheres a serem anunciadores dessa luz em todos os ambientes onde vivem. Após a celebração, concedeu uma bênção especial a todas as mulheres presentes.
Mais do que um percurso pelas ruas centrais de Santo André, a caminhada se tornou um testemunho público de que a Igreja não deseja se calar diante de uma realidade que fere tantas vidas, famílias e comunidades. Em oração, com a presença de seu bispo, de padres, diáconos e de tantas participantes, a Diocese reafirmou que defender a vida das mulheres é compromisso concreto do Evangelho.
Pela vida das mulheres, nenhuma a menos.










