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Diocese de Santo André

Oração, para que?

O avassalador desenvolvimento tecnológico ocorrido nos últimos quarenta anos, está elevando o ser humano a uma categoria de quase onipotência. Através da técnica o ser humano multiplica sua presença, nos vídeos-conferência, nos diagnósticos precisos na área da saúde, no perscrutar o universo e no alterar o ritmo da natureza, isto entre tantas outras façanhas que envolvem o auxílio de inúmeras e novas máquinas inteligentes.

Diante deste quadro se pode perguntar pela necessidade da fé em Deus, o que equivale a perguntar sobre o valor da oração, pois somente reza quem tem fé. Com tanto poder em suas mãos o ser humano é tentado a se esquecer de Deus ou a substituir o próprio Deus em sua vida, sendo Deus para si mesmo. Mas lá no seu íntimo o homem percebe que permanece o lugar secreto onde mora o próprio Deus, pois o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Criado para ser semelhante a Deus. O problema, na verdade o conflito, surge quando quer ser semelhante a Deus sem Deus.

A Palavra de Deus ensina que Deus é criador e amigo do ser humano. Tem satisfação em entrar em contato com ele (Gn 3,8-9). Deus associa o homem à criação, fazendo dele o guardião da natureza. E ao se assombrar diante da natureza e mesmo das suas próprias capacidades, o ser humano carrega em si, neste assombro, um elemento positivo de oração.

A oração é dirigir-se a Deus que sabemos que nos ama e falar com Ele na simplicidade. Jesus recomenda: “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lc 18,1).Jesus reza sempre e ensinou a belíssima oração do Pai Nosso. É preciso orar não só para pedir, mas para demonstrar amor por Deus. Até Ele, não chegarão palavras desprovidas de sentimento. Orar é necessário para que sintonizemos nossa vontade com a de Deus. Vontade que é a fonte de todo o bem.

O Brasil no alvorecer da República, estava dominado pelo pensamento positivista que via a religião como fruto da ignorância. Pois bem, neste período um dos brasileiros que mais sobressaíram pela inteligência escreveu: “Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. A oração é o íntimo sublimar-se da alma pelo contato com Deus. O trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar das energias do corpo e do espírito, mediante a ação contínua sobre si mesmos e sobre o mundo onde labutamos” (Rui Barbosa).

A Bíblia dá-nos exemplos significativos de oração, tanto pública como privada, sendo os Salmos o exemplo mais universal. Neles estão espelhadas orações de súplica, louvor, arrependimento, petição, orações que Jesus levará á perfeição. É possível orar sempre, até em um mercado ou passeio solitário, no seu trabalho, comprando ou vendendo, ou mesmo cozinhando, esta é a opinião de muitos santos.

À pergunta que dá título a este artigo respondo com a surpreendente conversa de dois personagens do inigualável romance de Guimarães Rosa: “O que mais penso, texto e explico: todo o mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma...” (Grande Sertão: Veredas p.8).

Que nesta quaresma possamos percorrer o caminho da oração.

Artigo escrito por Dom Pedro Carlos Cipollini para o Jornal Diário do Grande Abc

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