Diocese de Santo André

Dimensão contemplativa da vida

Existe um salmo na Bíblia que chama a atenção, é o Salmo 8. Fala da grandeza do ser humano na criação: “Quando vejo os teus céus, obra de teus dedos, a lua e as estrelas, as coisas que criastes, que é o ser humano para que dele te lembres, o filho do homem para que o visites?”

Na agitação da vida cotidiana, característica de nossa época, pouco tempo temos para pensar, meditar ou refletir no mistério que envolve nossa vida. Os filósofos antigos diziam, “quanto mais sei, mais sei que nada sei”. E aconselhavam o autoconhecimento, como fonte de sabedoria e equilíbrio mental. É preciso resgatar a dimensão contemplativa de nossa vida.

A grandeza e miséria do homem é o paradoxo que está no centro da reflexão e mensagem do filósofo cristão Blaise Pascal, nascido há quatro século, na França. Foi grande matemático e inventor da máquina de calcular. Nunca silenciava nele a questão, antiga e sempre nova, que ressoa no ânimo humano: «Que é o homem para Te lembrares dele, o filho do homem para com ele Te preocupares?». Esta pergunta está gravada no coração de cada ser humano, em todo o tempo e lugar, de qualquer civilização e língua, independentemente da sua religião.

Pascal desde criança, e por toda a vida, procurou a verdade. Conhecer a verdade é essencial para o ser humano que deseja saber. Era um homem de fé, mas uma fé que se ilumina com a razão e deixa que a razão ilumine a fé. Pesquisou, especialmente nos campos da matemática, geometria, física e filosofia.

Num século de grandes progressos em muitos campos da ciência, acompanhados, porém, dum crescente espírito de ceticismo filosófico e religioso, Blaise Pascal mostrou-se incansável investigador do verdadeiro. Como tal, permanecia sempre «inquieto», atraído por novos e mais amplos horizontes. Começou a falar do homem e de Deus, chegou à certeza de que não só conhecemos a Deus unicamente por Jesus Cristo, mas também nos conhecemos a nós mesmos apenas por Jesus Cristo.

A filosofia de Pascal, toda ela em paradoxos, deriva dum olhar simultaneamente humilde e lúcido, que procura alcançar a realidade iluminada pelo raciocínio. Parte da constatação de que o homem é como um estranho para si mesmo, grande e miserável; grande pela sua razão, a sua capacidade de dominar as paixões, grande até na medida em que se reconhece miserável. De modo particular aspira a algo mais do que satisfazer os próprios instintos ou resistir-lhes.

Nem a inteligência geométrica nem o raciocínio filosófico permitem ao homem chegar, sozinho, a uma visão perfeitamente nítida do mundo e de si mesmo. A pessoa que se debruça sobre os detalhes dos seus cálculos, não beneficia da visão de conjunto que permite entrever todos os princípios.

A verdadeira luz que ilumina o mistério da nossa vida e morte provém da ressurreição de Cristo, que é revelação de Deus. Só a graça de Deus permite ao coração do homem ter acesso à ordem do conhecimento divino, à caridade. Isto levou um importante comentarista, contemporâneo de Pascal, a escrever que o pensamento só consegue pensar cristãmente, se tiver acesso àquilo que Jesus Cristo implementa: a caridade.

O Papa Francisco dedicou sua Carta Apostólica ‘Sublimitas et miseria hominis’ à obra do filósofo e teólogo francês, no quarto centenário de seu nascimento. O papa o define “um companheiro de estrada que acompanha nossa busca pela verdadeira felicidade”.

De Pascal fica-nos o conselho de não cedermos ao materialismo, mas resgatarmos a dimensão contemplativa da vida. Pois, o ser humano tem uma alma e faz perguntas não só sobre a vida, mas também sobre o sentido da vida.

* Dom Pedro Carlos Cipollini, Bispo de Santo André

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