Missa da Quarta Feira de Cinzas na Catedral de Santo André
Abertura da Campanha da Fraternidade 18/02/2026
Homilia de Dom Pedro Carlos Cipollini
Irmãos e irmãs aqui presentes, prezados padres, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas e todos os que nos seguem pela mídia.
Hoje iniciamos uma caminhada, preparando-nos para celebrar a Páscoa que é a vitória de Jesus na sua ressurreição gloriosa. Nós compartilharemos esta vitória de Jesus e o seguirmos fielmente.
A Quaresma é um tempo para intensificar nossa conversão. Mudar de vida, reformar nossa vida, organizá-la para que seja mais de acordo com o Evangelho: “Voltai-vos para o Senhor, diz o profeta na primeira leitura, rasgai o coração”. Deus é misericordioso e perdoa nossos pecados se houver arrependimento. Somos convidados a buscar o Reino de Deus e sua justiça.
O Evangelho que ouvimos nos indica três práticas concretas nas quais Jesus nos exorta a viver uma conversão sem hipocrisia:
Primeiro a oração que é diálogo com Deus e meditação de sua Palavra. Em segundo lugar o jejum, o qual, mais que diminuir nossa comida, consiste em rever nossa relação com os bens materiais e o dinheiro. Por último a esmola, a qual, mais que oferecer algo ao próximo para aliviar nossa consciência, é a partilha dos bens. Deus é nosso Pai e somos todos irmãos. Ao partilhar com o irmão necessitado, você está ajudando teu Pai do céu a cuidar do teu irmão, filho do mesmo Pai como você. Assim, o que fazemos a um irmão necessitado fazemos ao próprio Deus e Pai de todos.
Porém, dar esmola é pouco, devemos ter consciência que a conversão deve ser não só pessoal, mas comunitária e social. A penitência, portanto, não é somente uma atitude interna e individual, mas também externa e social. O papa Leão lembra-nos que “devemos nos empenhar em resolver as causas estruturais da pobreza” (Dilexit te n. 94).
Por isso no Brasil desde 1954, a Igreja propõe a Campanha da Fraternidade como caminho ou itinerário para viver integralmente a Quaresma com coerência: “Se alguém disser que ama a Deus e não ama seu irmão, é mentiroso porque quem não ama a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo4,20).
A tentação de todos os cristãos é a mesma que sofreu Jesus: deixar o caminho do amor-serviço para trilhar o caminho do poder que leva ao egoísmo estéril. Jesus venceu e nós queremos vencer com Ele, com a força de sua palavra e de sua graça.
A Campanha da Fraternidade tem este ano como tema: “Fraternidade e Moradia” e como lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). É bom que perguntemos: “Por que estão sem casa estes nossos irmãos que estão nas ruas? No Brasil são mais de 300.000 pessoas sobrevivendo nas ruas, sendo que seis milhões de famílias necessitam de moradia. O problema de moradia está ligado à terra e no Brasil a posse de terra sempre foi privilégio dos ricos, pobre não pode ter terra. Está é a mentalidade iníqua que ainda vigora.
Nosso sistema econômico é excludente. Para o poder econômico a cidade é um negócio e não lugar de convivência e interação entre pessoas. O sistema econômico que temos, dificulta as ações em favor dos sem-teto e as políticas públicas que possibilitem casa para todos. Agravando tudo isto, temos a especulação imobiliária favorecida pelos que governam a cidade, em favor do lucro. Quando um governo aparece prometendo casa para todos, é porque este governo é um pai para os pobres e uma mãe para os ricos, donos da riqueza concentrada nas mãos de poucos.
Moradia para todos é um direito garantido pela Constituição Federal (cf. Art. 6), e é a porta de entrada para todos os outros direitos da cidade, cidadania e direitos humanos. Jesus nos ensina que somos filhos do mesmo Pai que deu tudo para todos. Mas nossa realidade que deveria ser diferente, é realidade de desigualdade, precariedade e marginalização. A Igreja é chamada a promover a moradia para o povo mais pobre e sofrido, contribuir para que todos tenham vida e vida plenamente (cf. Jo 10,10), e moradia é vida!
Nossa Diocese escolheu como uma das prioridades a Família. Perguntemos: o que faz uma família sem casa e sem moradia? Como viver pagando aluguéis caríssimos pois, para muitos a moradia é fonte de lucros exorbitantes. Não podemos nos esquecer que a casa é o lugar da família: é o lar!
Os municípios devem dar mais atenção à questão da moradia que é um direito e não uma esmola, como já foi dito. Existem muitos modos para se fazer isso e um deles é o cooperativismo habitacional, outro é a fiscalização das políticas públicas de moradia por parte das Câmaras Municipais. É preciso deixar questões menores e se concentrar nesta questão da moradia, uma questão de vida e de morte.
Enfim, irmãos e irmãs, Jesus veio morar entre nós. Não havia lugar para ele em Belém, não havia uma casa para receber Maria e José. Jesus teve que nascer em uma gruta no meio de animais. Esta dura realidade de nosso Senhor que entra no mundo e nasce sem teto, além de nos questionar é um convite para nos empenharmos, a fim de que todos tenham casa em uma país tão grande no qual não falta terra, mas justiça. Que assim Deus nos ajude.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
