Neste mês da Bíblia, refletimos o Livro do profeta Daniel. Nele há uma frase que vem a calhar com o que acontece atualmente no Brasil: “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, a confusão do rosto” (Dn 9,7). Os recentes escândalos referentes ao comportamento dos membros do Supremo Tribunal Federal (STF) é decepção para a Nação. A gravidade não se refere á quantidade de juízes envolvidos, mas ao fato de serem membros da Suprema Corte de Justiça da Nação. Existem milhares de juízes, por este Brasil afora, que são honestos, trabalham em prol da equidade.
A justiça, em última análise, pertence a Deus. Ele faz justiça ao longo da história, bastando uma leitura atenta da mesma para constatar. Como diz o ditado: “Deus tarda, mas não falta”. A nós cabe a confusão no rosto, ou seja, a culpa por esta situação. Uma culpa coletiva, pois, estes juízes vieram do meio de nós, são “produtos” brasileiros. Formados em uma cultura corrompida pelo levar vantagem em tudo, pelo descompromisso com a coletividade e a busca desenfreada de riquezas.
Curvam-se à mentalidade da época, como o juiz de Minas Gerais, afastado após beber e fumar durante sessão virtual de um julgamento (cf. Folha 12/08/26 p. A37). Precisa-se, realmente, como propõe um dos ministros do STF, que o judiciário reconheça as falhas e disponha a corrigi-las, começando com a adoção de um Código de condutas e regras. A implantação de normas desta natureza será um passo para resgatar a credibilidade.
É necessário recuperar as bases éticas que devem reger o serviço público. Neste sentido, a Doutrina Social da Igreja dá uma grande contribuição. Doutrina, não é aqui conjunto de ideias, mas um caminho, um saber comum.
Hoje vivemos uma “policrise”, uma crise com vários rostos e em várias frentes: guerras, mudanças climáticas, desigualdades, pobreza, migrações forçadas. Em meio a tudo isso, a Doutrina Social da Igreja chama para um diálogo com a consciência. Ela ensina que mais importante que os problemas, ou as respostas que damos a eles, é o modo como os enfrentamos para resolvê-los.
É preciso critérios de avaliação, princípios éticos e confiança em Deus. O diálogo, a amizade social e o altruísmo, o foco no bem comum, é sempre melhor que a discussão estéril, a briga pelo poder com base na vaidade do ego.
Em recente discurso o Papa Leão XIV disse: “À nossa volta há pouco diálogo e prevalecem as palavras gritadas, muitas vezes fake news e as teses irracionais de poucos arrogantes. Portanto, são fundamentais o aprofundamento do estudo, o encontro e a escuta dos pobres, tesouro da Igreja e da Humanidade, portadores do ponto de vista dos descartados, mas indispensáveis para ver o mundo com os olhos de Deus.” (Discurso in L’Oss. Rom. Ed. Port. n. 7 junho 2025).
Hoje, há necessidade generalizada de justiça e de bons juízes, sábios e honestos. Sem a justiça prevalece a lei do mais forte.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André
