A memória de São José Operário colocou no centro da celebração uma realidade que atravessa a vida de todos: o trabalho. Aquele que sustenta famílias, constrói cidades, movimenta comunidades e, tantas vezes, também carrega marcas de cansaço, desigualdade e luta por dignidade.
Foi com esse sentido que a Diocese de Santo André celebrou, no dia 1º de maio, a Missa do Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras, na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem – Basílica Menor, em São Bernardo do Campo. Presidida por Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo diocesano de Santo André, a celebração reuniu fiéis, representantes da classe trabalhadora, autoridades, padres e diáconos.
Na homilia, Dom Pedro partiu do Evangelho em que Jesus se apresenta como caminho, verdade e vida. A partir dele, conduziu a reflexão para a figura de São José, o artesão de Nazaré, e para o próprio Jesus, que assumiu a vida simples de uma família trabalhadora.
“Celebramos também Jesus, que era operário, porque, na época dele, o filho aprendia a mesma profissão do pai”, afirmou o bispo.
Dom Pedro recordou que, antes dos anos de pregação pública, Jesus viveu por longo tempo em Nazaré, em meio aos pobres, trabalhando como artesão, como José. Para o bispo, esse dado ajuda a compreender o sentido cristão do trabalho, não como peso sem valor, mas como participação humana na obra de Deus.
“O trabalho não é uma maldição. O trabalho é um modo pelo qual o ser humano continua contribuindo na criação”, disse.
O bispo lembrou ainda que Deus cria e sustenta a vida, mas confia ao ser humano a responsabilidade de organizar, partilhar e cuidar dos bens da criação. Por isso, falar de trabalho também exige falar de dignidade, de justiça e de promoção humana.
A própria Basílica Menor, segundo Dom Pedro, guarda uma memória importante para a história do ABC. Durante a ditadura militar, quando trabalhadores eram impedidos de realizar assembleias em outros espaços, muitos operários encontraram ali abrigo para se reunir e organizar suas lutas.
“Foi aqui que os operários se refugiaram para fazer sua assembleia”, recordou.
Ao olhar para a realidade brasileira, Dom Pedro também falou das marcas deixadas por séculos de escravidão e das desigualdades que ainda ferem o país. Segundo ele, a fé em Jesus Cristo deve levar os cristãos a defender a vida e a trabalhar para que todos tenham condições concretas de viver com dignidade.
“A última palavra não é da morte, é da vida. E queremos a vida digna, porque Deus quer a vida digna para todos”, afirmou.
O bispo apontou dois caminhos fundamentais para enfrentar as desigualdades no Brasil: a justa distribuição de renda e uma educação verdadeira. Ele observou que muitos esforços são importantes, mas que é preciso tocar nas causas mais profundas do sofrimento de grande parte da população.
“O essencial no Brasil é uma justa distribuição de renda e também a questão da educação”, disse Dom Pedro.
Ao concluir, o bispo convidou a comunidade a rezar para que Deus conceda luz, sabedoria e coragem àqueles que têm responsabilidades nas decisões que podem transformar a vida do povo. Para ele, a educação precisa formar para a vida, para a liberdade e para a paz.
Dom Pedro também fez um apelo firme, no final da celebração, pela defesa da vida das mulheres, pedindo um basta ao feminicídio. Em um dia dedicado à dignidade de quem trabalha e à valorização da vida, o bispo recordou que nenhuma sociedade pode se dizer justa enquanto mulheres continuam sendo vítimas da violência.













