O mundo sem Deus busca a Deus apesar de parecer o contrário. Estamos em um processo de secularismo, no qual vale o que se vê e o que dá lucro, com o triunfo do consumismo. Este processo vai minando as bases da fé e a vida com Deus. Será que a fé se extinguirá em nossa cultura? Jesus mesmo se perguntou: “Acaso o filho de do homem quando vier encontrará fé sobre a terra? (Lc 18, 8)
Penso que esse processo de esquecimento de Deus é como uma noite escura. Nela se justifica a nossa imagem de Deus, a fim de que, aqueles que acreditam possam finalmente viver a fé pura e despida de falsos apoios, como escreveu Ignácio Larrañaga.
A nossa imagem de Deus, foi muitas vezes contaminada por nossos medos e inseguranças, nossos interesses e sistemas, nossas ambições, nossas ignorâncias e limitações. Deus parecia a solução mágica para todas as coisas e não raro servia de muleta, manifestando-se na religiosidade.
A secularização está derrubando essas falsas imagens de Deus para que possa aparecer seu verdadeiro rosto, conforme nos apresenta a Bíblia: um Deus que ama o ser humano, o interpela, incomoda e desafia. Não facilita, mas dificulta, não explica, mas complica, não nos mantém crianças, mas nos torna adultos. É o Deus libertador que nos ensina a enfrentar as inseguranças, as injustiças e ignorância.
Aqui considero que existe fuga de Deus, mas do Deus falsificado que é apresentado e que não corresponde à sua imagem verdadeira. Existe uma grande busca de conhecer e experimentar, através de diversas religiões, o que pode nos sintonizar com Deus. Há uma busca mesmo que seja inconsciente de contato com o transcendente, com o último da alma.
Milhares de jovens buscaram, em décadas passadas, o contato com o absoluto através de técnicas de meditação orientais e movimentos “neomísticos”. Hoje, essas experiências se dão nos grandes shows, nos quais multidões entram em delírio diante do som e do conteúdo de músicas que tocam os sentimentos. Quando não, o mundo das drogas pode representar uma busca inconsciente de encontrar com o sagrado, que faz sentir-se bem como num êxtase.
Esses fatos demonstram que a técnica, a sociedade de consumo e o materialismo em geral, não são capazes de sufocar as fontes profundas do ser humano, de onde emana a eterna e inextinguível sede de Deus.
Para muitas pessoas, a revitalização da vida com Deus, a recuperação do sentido de Deus é a primeira esperança para que o mundo volte a encontrar um equilíbrio, na qual a vida adquira um sentido.
A quantidade impressionante de modalidades e experiências para promover o encontro consigo mesmo, o bem-estar psicológico, o encontro com Deus, indica que o Espírito Santo está despertando nos corações, vazios e cansados, o desejo de Deus, dirigindo os corações para as regiões mais profundas de intercomunicação com Deus.
O ser humano deve correr o risco de submergir no oceano profundo, nas regiões insondáveis do mistério de Deus. Como resultado disso chegará a sentir a vertigem de Deus, que é um misto de fascínio, espanto e aniquilamento que o impulsiona para a autorrealização.
As pessoas que retornarem desta aventura serão figuras trabalhadas a cinzel pela pureza, pela força e o fogo! Terão sido purificadas pela força arrebatadora de Deus, e sobre eles aparecerá a imagem deslumbrante de seu Filho Jesus. Serão testemunhas da presença de Deus entre nós, pois ele caminha conosco na história e isto faz toda a diferença. Sem Deus o homem não se explica, mas se complica.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André
