A Diocese de Santo André, por meio da Comissão para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso, reuniu lideranças de diferentes tradições religiosas para o Ato Interreligioso pela Paz Mundial, um encontro marcado pela escuta, pelo respeito e pelo compromisso comum com a defesa da vida.
A atividade contou com a presença de representantes da Igreja Católica, da Igreja Evangélica Batista, da religião muçulmana, da Fé Bahá’í, da ISKCON, das religiões de matriz africana, dos povos indígenas do ABC e da ACAT, Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura. Mais do que reunir crenças diferentes, o ato recordou que a paz não pode ser entendida apenas como ausência de conflitos, mas como fruto da justiça, da dignidade, do diálogo e da responsabilidade de cada pessoa diante do sofrimento humano.
A abertura foi conduzida pelo Pe. Dayvid da Silva, assessor eclesiástico da Comissão para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Diocese de Santo André. Ele acolheu os presentes e recordou que, mesmo diante da pequenez dos gestos humanos, pequenos atos podem ajudar a transformar realidades.
“Estamos reunidos várias religiões para pedir paz em nosso mundo e em nossa sociedade. Sabemos que somos poucos, somos pequenos, mas somos confiantes de que pequenos atos podem mudar o mundo”, afirmou.
À luz do Evangelho, Pe. Dayvid recordou as palavras de Jesus: “Bem-aventurados os promotores da paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Para ele, o encontro deve provocar cada participante a assumir, em sua própria tradição religiosa, o compromisso de ser promotor da paz, especialmente em favor dos mais pobres, dos que sofrem com as guerras, com a violência e com a injustiça social.
O sacerdote também citou a encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, ao recordar que a desigualdade e a falta de desenvolvimento humano integral impedem a construção da paz. Em sua fala, reforçou que o diálogo entre religiões não se resume à diplomacia ou à tolerância, mas busca criar amizade, harmonia e partilha de valores espirituais e humanos.
A iniciativa do ato nasceu a partir da provocação de Vilma Amaro, representante da ACAT, que procurou a Diocese de Santo André diante das guerras e das violências que atingem diferentes povos no mundo. Em sua fala, ela agradeceu o apoio da Comissão para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso e lembrou que a luta pela paz passa também pelo combate à fome, às desigualdades e ao investimento excessivo em armamentos.
“O que nos moveu foi acompanhar as guerras no mundo todo e perceber que os confrontos podem levar a consequências muito graves para o planeta. Nós temos que reunir as pessoas. Somos todos iguais”, afirmou.
Vilma também apresentou dados sobre a fome no mundo e defendeu que os recursos gastos em armas poderiam ser direcionados a políticas de combate à miséria e de promoção da vida. Para ela, o encontro entre religiões é uma forma concreta de fazer a própria parte, ainda que pareça pequena diante da dimensão dos conflitos.
Entre as lideranças presentes, Pai Marlon, representante das religiões de matriz africana, falou sobre a filosofia Ubuntu, ligada aos povos banto, especialmente das tradições africanas do Congo e de Angola. Ele explicou que a expressão aponta para a compreensão de que ninguém se realiza sozinho e que a felicidade de uma pessoa não pode ser separada da felicidade dos demais.
“A gente precisa caminhar junto. Se a gente não der as mãos, não consegue construir tudo aquilo que precisa ser construído”, afirmou.
Pai Marlon também falou sobre a importância do diálogo para combater preconceitos contra os terreiros e contra as tradições de matriz africana. Para ele, a paz nasce também do conhecimento, da escuta e da disposição de superar julgamentos.
O tema do preconceito também foi abordado por Pai Eduardo, representante do candomblé. Ele recordou que, muitas vezes, a intolerância religiosa contra as tradições de matriz africana está profundamente ligada ao racismo. Em sua fala, defendeu que conhecer o outro é um caminho essencial para combater a ignorância, a violência e a exclusão.
“Aquilo que ajuda a combater essa violência é justamente o conhecimento. Quando a gente se dispõe a ouvir o outro, a entender o lugar do outro e a colaborar com suas necessidades, damos um passo importante para a paz”, afirmou.
Representando a Igreja Evangélica Batista, o pastor Levi Araújo fez uma reflexão a partir da saudação cristã “Paz do Senhor”. Ele recordou que a paz anunciada por Jesus não é semelhante à paz imposta pelos impérios ou pelos sistemas de dominação. Ao contrário, é uma paz que nasce da justiça, da coragem e da resistência diante da opressão.
“A paz é base da resistência. Se não estamos resistindo à perseguição e à opressão, não estamos vivendo a paz de Cristo”, afirmou.
O pastor também partilhou sua caminhada no diálogo inter-religioso e recordou experiências de amizade e respeito construídas ao longo dos anos com lideranças de outras tradições. Para ele, a escuta respeitosa é uma das grandes escolas da convivência.
A religião muçulmana foi representada pelo Sheiki Kamal, coordenador do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina, com sede em São Bernardo do Campo, e pelo Xeique Abdullah. Em sua fala, Sheiki Kamal afirmou que, apesar das diferenças de crença, cultura e tradição, todos compartilham a mesma humanidade.
“A dor não tem religião. A fome não tem religião. As bombas não escolhem entre muçulmanos, cristãos, judeus ou pessoas de outras religiões. O sangue de uma criança inocente tem a mesma cor em qualquer lugar do planeta”, afirmou.
Ao tratar dos conflitos internacionais, especialmente da situação na Palestina, Sheiki Kamal ressaltou que falar de paz exige justiça, consciência e coragem para defender a vida humana. Ele afirmou ainda que as religiões devem ser pontes, e não muros, ajudando a humanidade a escolher a vida em vez da guerra.
Representando os povos indígenas do ABC, Elaine Pankararu partilhou sua história pessoal e a memória de ressurgência de seu povo. Nascida e criada em Santo André, ela contou que só reconheceu plenamente sua identidade indígena após a partida de seu pai, que lhe confiou a missão de buscar as raízes familiares e ancestrais.
Ela recordou que muitos de seu povo precisaram esconder suas características indígenas para sobreviver, enfrentando fome, exílio e apagamento de identidade. Para Elaine, a paz também está ligada ao direito de saber quem se é e de caminhar com dignidade.
“Ali, naquele momento, eu encontrei a minha paz enquanto ser humano e enquanto mulher, porque encontrei a minha identidade real”, partilhou.
A Fé Bahá’í foi representada por Daniel e Maria de Lourdes. Em sua fala, Maria de Lourdes apresentou princípios centrais da tradição, como a unidade na diversidade, a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação de preconceitos e a educação universal. Ela afirmou que a paz começa no interior de cada pessoa, mas precisa se transformar em ação concreta.
“Todo conhecimento espiritual só faz sentido na ação. Não basta falar, é preciso agir”, afirmou.
O Rev. Mahesvara Caitanya Das Goura Vanacari, conhecido como Prof. Mahesh, sacerdote brâmana e representante da ISKCON, apresentou a experiência da banda inter-religiosa “Sou da Paz”, criada com o objetivo de promover a convivência pacífica entre pessoas de diferentes crenças. Para ele, a paz envolve dimensões externas e internas: passa pelas condições sociais, pela superação da fome, do medo e da exploração, mas também pela busca de equilíbrio interior.
“Antes de sermos de qualquer religião, gênero, partido ou origem, somos humanos. E essa condição não muda. Por isso precisamos nos respeitar enquanto seres humanos”, afirmou.
Ao longo do ato, as lideranças também participaram de momentos de oração, canto e gesto fraterno. A assembleia entoou a Oração de São Francisco, rezou preces pela paz e cantou trechos que recordavam a fraternidade entre pessoas de diferentes religiões. Ao final, Pe. Dayvid convidou todos a se saudarem com o abraço da paz, gesto comum nas liturgias cristãs e, naquele momento, vivido como expressão de respeito mútuo.
O encontro foi encerrado com uma oração de bênção, rezada pelas lideranças religiosas e por todos os presentes. A prece pediu que Deus acompanhasse cada pessoa ao partir, iluminasse o caminho, sustentasse nos momentos difíceis e permanecesse no coração de todos com alegria e paz.
Em meio às dores do mundo, o Ato Interreligioso pela Paz Mundial deixou uma mensagem simples e necessária: a paz começa quando pessoas diferentes aceitam sentar-se à mesma mesa, escutar-se com respeito e reconhecer, no outro, a mesma dignidade humana.








