Diocese de Santo André

Primeira Mesa Fraterna aprofunda o tema da moradia e convoca comunidades a gestos concretos de dignidade

Promovido pelo Vicariato Episcopal para a Caridade Social e pela Comissão Diocesana da Campanha da Fraternidade, encontro reuniu agentes pastorais para refletir sobre moradia, território, casa comum e ações sociais nas paróquias.

A manhã começou em oração, como sinal de que a caridade, na vida da Igreja, nasce sempre da escuta de Deus e se transforma em presença concreta junto aos irmãos e irmãs que mais precisam. Foi nesse espírito que a Diocese de Santo André realizou, no dia 11 de abril, no Auditório da Cúria Diocesana, a 1ª edição da Mesa Fraterna, com o tema “Fraternidade e Moradia”.

A iniciativa foi promovida pelo Vicariato Episcopal para a Caridade Social e pela Comissão Diocesana da Campanha da Fraternidade, reunindo agentes de pastorais sociais, lideranças, diáconos, religiosos e representantes das comunidades para uma manhã de formação, partilha e encaminhamentos pastorais.

Na abertura, o diácono João Ribeiro acolheu os participantes e recordou que o encontro fazia parte de um caminho já iniciado pela Diocese, em sintonia com a Campanha da Fraternidade e com o desejo de ampliar a reflexão sobre a ação social da Igreja.

“Podemos mais uma vez agradecer a presença de todos que vieram passar esta manhã de partilha e também abrir ainda mais o nosso horizonte dentro daquilo que nós temos pensado, sonhado, rezado e partilhado sobre o nosso Vicariato e sobre a proposta da Campanha da Fraternidade”, afirmou.

A primeira convidada foi a professora doutora Marlise Aparecida Bassani, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Andreense, ela iniciou sua fala recordando sua ligação com Santo André e sua trajetória acadêmica, marcada pelo compromisso com a liberdade de conhecimento, a ética e a diversidade.

Em sua reflexão, Marlise conduziu os participantes a olharem para a casa não apenas como construção material, mas como lugar de afetos, memórias, identidade, sonhos e pertencimento. Ao apresentar exemplos de famílias e espaços de convivência, ela recordou que cada moradia carrega histórias que precisam ser respeitadas.

“Um lugar para chamar de seu é importante. Não despreze a necessidade de você ter o seu cantinho, o seu espaço, a sua privacidade e também um tempo só seu”, afirmou.

A professora também abordou a casa como lugar de talentos e sonhos, chamando atenção para a importância de reconhecer aquilo que cada pessoa carrega e pode oferecer à comunidade. Ao tratar dos ambientes transitórios, falou sobre a realidade de migrantes e refugiados, ressaltando as marcas culturais, emocionais e sociais que atravessam quem vive sem a segurança de um lugar estável.

Ao final, Marlise relacionou a moradia à casa comum, expressão tão presente no magistério do Papa Francisco, e lembrou que aquilo que se vive dentro de casa também repercute na forma como cada pessoa se relaciona com a sociedade e com o meio ambiente.

“A nossa casa comum, o que a gente vive na nossa casa, a gente tem que pensar nos reflexos que se tem na nossa casa comum”, disse.

Na sequência, Frei Marcelo Toyansk Guimarães, frade franciscano capuchinho e coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela na Igreja do Brasil, aprofundou o tema da Campanha da Fraternidade a partir da realidade social do país e da missão evangelizadora da Igreja.

Logo no início, Frei Marcelo afirmou que falar de moradia é tocar em muitos aspectos da vida humana. Segundo ele, casa não é apenas o lugar para onde alguém volta no fim do dia, mas também o espaço onde se constroem vínculos, valores, relações familiares e sonhos.

“Quando a gente traz uma Campanha da Fraternidade sobre moradia, não é algo muito restrito. Ela conecta com muitas questões que a gente vive no dia a dia”, afirmou.

O frade chamou atenção para o direito à moradia e para o direito à cidade, explicando que morar bem não significa apenas ter quatro paredes, mas também acesso a transporte, saúde, educação, saneamento, cultura, lazer, áreas verdes e infraestrutura urbana.

“Moradia também está ligada à localização dela. Hoje se fala muito do direito à moradia e do direito à cidade. Não é só as quatro paredes jogadas no mato”, explicou.

Ao tratar da urbanização brasileira, Frei Marcelo recordou que o país mudou rapidamente nas últimas décadas, com a maior parte da população vivendo hoje em áreas urbanas. Para ele, essa transformação exige da Igreja um olhar mais atento para a dinâmica das cidades e para as periferias.

“A Igreja precisa se debruçar sobre o mundo urbano. Como vamos desempenhar a evangelização se não entendemos a realidade em que estamos?”, questionou.

Um dos pontos centrais de sua fala foi a moradia como direito básico. Ele lembrou que, diferentemente de outros bens, ninguém consegue viver dignamente sem um lugar para morar.

“Moradia é um direito básico. Sem carro a gente pode viver, ainda mais se tiver transporte público. Sem moradia, a gente pode viver? Moradia é básica como comida e saúde”, afirmou.

Frei Marcelo também alertou para os preconceitos que muitas vezes recaem sobre as pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo ele, há uma tendência de culpabilizar os pobres por estarem em áreas de risco, em ocupações, em cortiços ou em situação de rua, sem considerar as exclusões históricas e sociais que negaram a essas pessoas o acesso a direitos fundamentais.

“Existe uma exclusão de muita gente desse direito básico, e a Igreja pode ajudar muito a entender que é um direito que precisa ser garantido”, disse.

Ao comentar a presença da Igreja nas periferias, Frei Marcelo foi direto ao provocar os agentes pastorais a irem além de ações pontuais. Para ele, a caridade exige proximidade, paciência, escuta e compromisso permanente.

“Fortalecer a presença da Igreja junto aos pobres é uma presença transformadora. Não é só uma presença para angariar fiéis, mas uma presença comprometida, pastoral, nas periferias”, afirmou.

O frade também apresentou a moradia como lugar profundamente ligado à identidade. Ao recordar o lema da Campanha da Fraternidade, “Ele veio morar entre nós”, refletiu sobre o próprio Cristo, que nasceu sem lugar e viveu na lógica da acolhida, da partilha e da inclusão.

“Jesus é conhecido como Jesus de Nazaré. Nazaré é o lugar onde ele cresceu, onde ele morou. O lugar está no nome dele. Isso mostra como a moradia marca a nossa identidade”, afirmou.

Após a reflexão de Frei Marcelo, o diácono Marcelo Cavinato, assessor eclesiástico da Campanha da Fraternidade na Diocese de Santo André, apresentou o Projeto Betel, gesto concreto diocesano inspirado no tema da moradia. Ele explicou que a proposta nasceu a partir das reflexões realizadas com a Pastoral da Moradia e foi apresentada ao clero antes de ser encaminhada às comunidades.

Segundo o diácono, o projeto recebeu de Dom Pedro Carlos Cipollini o nome Betel, que significa “Casa do Pão”. A proposta é simples, possível e voltada a pequenas intervenções em moradias de famílias em situação de vulnerabilidade.

“É um projeto humilde, até porque precisava ser de acordo com a nossa realidade e factível. Não adianta elaborar um plano maravilhoso que não vai sair do papel. Esse é para sair do papel”, afirmou.

O diácono Marcelo explicou que o ponto de partida será a visita às famílias, especialmente aquelas já acompanhadas pelas pastorais sociais das paróquias. A partir da visita, a comunidade poderá identificar situações concretas, como telhados danificados, ausência de banheiro adequado, necessidade de acessibilidade para idosos ou pequenas reformas urgentes.

“As visitas são necessárias e são o ponto de partida. Quando você vai conhecer a realidade, é ali que toma conhecimento do que está acontecendo”, explicou.

O projeto prevê a articulação entre paróquias, comunidades, párocos, administradores paroquiais, diáconos, CPP, CAEP, pastorais sociais e voluntários. A Diocese poderá contribuir financeiramente com parte dos recursos do Fundo de Solidariedade, enquanto as comunidades serão chamadas a colaborar com doações, materiais e mão de obra.

“A comunidade vai se organizando, vai se unindo, vai chegar como Igreja até esse local, e esta pessoa vai sentir esse abraço, essa acolhida de Jesus que nós vamos levar”, afirmou o diácono.

Para mostrar que a proposta é possível, ele recordou uma experiência realizada pela Pastoral Social da Paróquia São Pedro e São Paulo, onde uma casa em situação precária foi reconstruída com doações e trabalho voluntário. A ação também revelou talentos dentro da própria comunidade, como pedreiros, eletricistas, encanadores e pessoas dispostas a servir.

“Descobrimos os talentos paroquiais que todos nós temos. Pedreiros, eletricistas, encanadores e tudo mais. É possível fazer e dá para fazer”, afirmou.

Ainda durante o encontro, o padre Ryan Holke, vigário episcopal para a Caridade Social, apresentou encaminhamentos do Vicariato e falou sobre a necessidade de fortalecer a pastoral de conjunto, especialmente à luz do 9º Plano Diocesano de Pastoral.

Ele explicou que o Vicariato deseja avançar na integração entre paróquias, pastorais, movimentos, entidades e organismos diocesanos, para que as ações sociais não dependam apenas de iniciativas isoladas, mas sejam assumidas de forma articulada.

“Nós queremos colocar em prática essa pastoral de conjunto, que é a nossa capacidade de articular juntamente com as outras pastorais”, afirmou.

Padre Ryan também falou sobre a nova dinâmica proposta para o Dia Mundial dos Pobres, que deverá envolver não apenas mutirões, mas também ações de conscientização nas comunidades paroquiais. A ideia é que as paróquias possam apresentar aos fiéis o que é o Vicariato, quais ações são realizadas e como cada pessoa pode se envolver.

“O Dia Mundial dos Pobres não é para a gente comemorar pobreza, é para nos conscientizar. Agora, nós temos que conscientizar a nossa comunidade paroquial”, explicou.

O vigário episcopal também recordou que a Diocese realiza muitas ações na área social, mas que grande parte da comunidade ainda desconhece a amplitude desse trabalho.

“A nossa Diocese faz um trabalho admirável, acontecem muitas coisas e nós temos feito um progresso importante ao longo desses últimos seis anos da existência do Vicariato. Mas muito pouca gente sabe disso”, afirmou.

Entre os encaminhamentos apresentados, também estiveram o fortalecimento dos mutirões, a realização de ações nas foranias, a proposta do Tapete Solidário em Corpus Christi, a participação no Grito dos Excluídos, o Retiro “Deus Tem Jeito”, voltado a pessoas em situação de rua, e a formação sobre o Dia Mundial dos Pobres.

Padre Ryan reforçou ainda que o Vicariato precisa ser um espaço de comunhão e apoio para quem atua diretamente nas realidades mais difíceis. Ao comentar situações complexas encontradas pelas pastorais, pediu que os agentes partilhem os desafios para que a Diocese possa buscar caminhos em conjunto.

“Quando vocês se encontrarem com alguma coisa espinhosa, complicada, digam para a gente, porque é a melhor forma de crescermos com o Vicariato. Vocês não estão sozinhos”, afirmou.

Ao final, o diácono João Ribeiro recordou que a Diocese está em processo de reestruturação do Vicariato, com a criação de comissões e novas formas de organização. Segundo ele, quanto mais estruturado estiver o trabalho, maior será a possibilidade de continuidade das ações realizadas em nome da Igreja.

“O Vicariato não é uma pessoa, não é uma pastoral. Ele é um organismo dentro da Diocese que vai trabalhar toda a questão social e de acolhimento dos mais necessitados”, afirmou.

A 1ª Mesa Fraterna encerrou-se como um chamado para que as comunidades olhem com mais atenção para as realidades de vulnerabilidade presentes em seus territórios. Ao unir formação, escuta e encaminhamentos práticos, o encontro recordou que a moradia digna não é apenas uma pauta social, mas uma exigência humana, pastoral e evangélica.

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