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Diocese de Santo André

Casamento

Certa vez perguntaram a Jesus se era permitido o homem abandonar a mulher (cf. Mt 10, 2-16). A pergunta era capciosa. Se Jesus falasse que sim, seria acusado de não ter misericórdia. Na sociedade patriarcal em que se vivia então, a mulher não tinha cidadania, era propriedade do marido. Se Jesus dissesse que não, estaria indo contra a Lei de Moisés que permitia ao homem dar carta de divórcio, quando não queria mais a mulher por qualquer motivo. E agora?

Jesus respondeu com uma pergunta: o que diz as Escrituras? Jesus remonta à criação conforme está no primeiro livro da Bíblia. Qual foi o projeto original de Deus para a união entre homem e a mulher? Está no livro do Gênesis logo no início: Deus criou o homem e a mulher e os destinou um ao outro, para que vivessem no amor.

Jesus afirma que o homem e a mulher têm a mesma dignidade, os mesmos direitos. O amor verdadeiro não é por uma temporada. Quando existe mesmo é para sempre. Quando se ama, se cuida. Não estamos falando de paixão. Esta compara-se a um incêndio, o qual, quando acaba, deixa somente cinzas, a paixão quer devorar o outro. Amor brota da alma e se alimenta também do sacrifício de um pelo outro.

Os fariseus que interrogavam Jesus se preocupavam se estavam dentro da Lei ou não (legalismo). A lei dava o domínio do homem sobre a mulher. Jesus, no entanto, propõe outra atitude: a preocupação com o relacionamento com Deus e com a outra pessoa. Deus, vida e ser humano vem antes da Lei. No relacionamento humano deve haver responsabilidade. Você é responsável pelo outro, é a ética cristã do matrimônio.

Moisés permitiu ao homem dar carta de divórcio para a mulher, a fim de amenizar sua situação em uma sociedade machista onde sem o marido a mulher teria que mendigar ou se prostituir para sobreviver. Era o mal menor, já que não se suportava o projeto original de Deus, que consiste na união de um homem e uma mulher que deixam sua família para formar outra família, fundamentando seu amor na unidade e fidelidade.

No início desta pandemia vimos como aumentaram o número de separações. O susto de ter que conviver com o outro no dia a dia, na mesma casa, trouxe surpresas. Realmente, de perto ninguém é normal como se diz. Costumamos idealizar muito as pessoas e quando se trata do matrimônio, o romantismo estraga tudo, pois, não raro vive de fantasia.

Romantismo é a maneira de olhar o outro somente pelos sentimentos que acabam caindo no sentimentalismo. Ele ou ela não é príncipe ou princesa encantados. São seres humanos com seu lado luminoso e suas sombras. O romantismo vê somente o lado luminoso, vive de ilusão.

A imaturidade impede muitas pessoas de assumir o matrimônio cristão com seu componente de diálogo, doação mútua, perdão, escuta e indissolubilidade. Feliz é o casamento no qual o homem é a cabeça e a mulher o coração, os dois, bem sincronizados pelo amor que leva à amizade.

O casamento sem amizade é um dia sem aurora e o tempo está sempre nublado.

* Artigo por Dom Pedro Carlos Cipollini, Bispo da Diocese de Santo André

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