Dom Pedro Carlos Cipollini – Bispo de Santo André – SP
Consta no Evangelho que, quando Jesus nasceu em Belém uma grande luz apareceu sobre a terra e com ela, a esperança entrou no coração da humanidade: “O povo que estava nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16). Neste final de Ano Santo de Esperança, convém refletir sobre o mistério profundo e central da Encarnação: Deus se fez homem! Juntamente com o mistério Pascal da Redenção formam o eixo da fé cristã.
Com a luz elétrica as pessoas perderam a experiência da escuridão e valorizam a luz mais como enfeite, do que como guia, que possibilita caminhar nas trevas e vislumbrar um lugar seguro. Muitos interesses econômicos zombam da estrela guia, que iluminou o caminho dos reis magos até Jesus, com o qual compartilharam seus presentes. Perde-se o sentido profundo da solidariedade e partilha. As grandes arrecadações de alimentos têm finalidade de propaganda e promoção de entidades e de pessoas. O Natal virou um grande lance do mercado, uma oportunidade de lucro e de consumo. Não se fala mais em Jesus, nem mesmo do Papai Noel. O que vale é a árvore carregada de presentes que formam hoje o centro das festas natalinas. Perdemos o sentido do Natal?
É Natal! Jesus nasceu e quando uma criança nasce, o mundo recomeça. Com Jesus o recomeço foi geral, profundo, ontológico. Em Jesus, Deus intervém, entra na humanidade para redimi-la e fazer novas todas as coisas. O mundo velho do pecado jamais será o mesmo, seus dias estão contados, em que pese a devastação que o mal ainda faz no mundo. Jesus traz o amor ao mundo e o amor é a morte da morte.
O Natal é um convite a acolher o Deus Menino que nos pode dar vida plena, digna e feliz para todos. Em Jesus, Deus se revela como aquele que ama a humanidade, fruto de suas mãos. Em Jesus, Deus se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza (cf. 2Cor 8,9). Jesus Cristo e apenas ele, tem o primado absoluto na criação no mundo. Por meio dele e para ele, todas as coisas foram criadas.
O Natal deste ano coincide com o encerramento do Jubileu da Esperança. Somos chamados a renovar nossa esperança. Por isso, compreendamos que o medo não faz parte do dicionário cristão, aquele medo que paralisa, apavora e impede de ser feliz. O mundo é de Deus e Deus não o abandona à deriva. Ele envia Jesus seu filho que estando nesta barca da criação, navegando em mares tempestuosos, a levará a seu destino. É importante, por isso, compreender a Palavra de Deus que se manifestou em Jesus Cristo: Ele é a imagem do Deus invisível, o qual ninguém jamais viu. Jesus é a primeira e última palavra de Deus seu Pai. É resposta a todas as nossas perguntas.
Deus nos convida, como convidou os pobres pastores, para serem os primeiros a visitar e acolher o menino Jesus. Ele quis nascer entre os pobres para sinalizar que Deus começar sua obra da salvação pelos pobres. A atenção aos pobres no Natal não nos deve, porém, fazer-nos esquecer de Jesus, o “aniversariante”. Imitemos os pastores de Belém que, diante do anúncio do anjo, disseram uns aos outros: “Vamos a Belém ver este acontecimento que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2,15). Ao chegarem à gruta, viram a manjedoura, contemplaram o menino Jesus e ficaram maravilhados.
É preciso voltar a se maravilhar com a figura do presépio, do Menino Jesus. O Natal não pode ser um aniversário, do qual não se deve falar, nem mostrar o aniversariante! Pois Ele é “o amor que move o céu e as estrelas” (Dante in A Divina Comédia – último verso).
Feliz e maravilhoso Natal para todos!
