A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa da Igreja Católica e este ano traz como tema “Fraternidade e Moradia”. Mais que oportuno refletir sobre a questão da moradia. O lema desta CF: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), mostra o fundamento bíblico a partir do qual a Igreja propõe a reflexão sobre este tema.
A Câmara Municipal de Santo André votou e aprovou a Lei N. 10.888 de 14/11/2025 que instituiu o “Dia Municipal de Abertura da Campanha da Fraternidade”. O objetivo é conscientizar e promover ações que transformem a realidade. É preciso conscientizar, a partir da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja. Jesus se identifica com tantas pessoas que sofrem a falta de moradia (cf. Mt 25,31). A Igreja quer seguir seus passos.
Terra, teto, trabalho para todos, este é o projeto para a dignidade da pessoa humana, desejo de Deus, para que todos tenham vida e vida plena (cf. Jo 10,10). Moradia não pode ser reduzida a mercadoria. É uma necessidade essencial para o desenvolvimento humano integral.
Surge a pergunta: por que a Igreja se preocupa com este tema que parece mais social ou político que espiritual? De fato, moradia é algo bem concreto. Ao passo que a missão da Igreja é uma missão religiosa (cf. Vat II – GS 42). Porém, desta mesma missão religiosa decorrem luzes e forças, que auxiliam a organização da sociedade em vista do bem comum, da prática da Lei de Deus e da realização da pessoa humana em sociedade.
É neste sentido que Dom Helder Câmara dizia: “Se meu irmão tem fome é um problema material dele, mas o que eu faço diante da fome de meu irmão é um problema espiritual meu”. Porque serei julgado pela lei do amor, no fim da vida.
Neste tempo de quaresma a Igreja exorta os fiéis a rezarem, jejuarem e dar esmolas. No entanto, dar esmola é pouco, deve-se ter consciência que a conversão é não só pessoal, mas comunitária e social. A penitência que transforma, portanto, não é somente uma atitude interna e individual, mas também externa e social (cf. papa Leão XIV in Dilexit te n. 94).
Por isso, no Brasil, desde 1954, a Igreja propõe a Campanha da Fraternidade como itinerário para viver a Quaresma com coerência. É bom que perguntemos: “Por que estão sem casa os moradores de rua? No Brasil são mais de 300.000 sobrevivendo nas ruas, sendo que seis milhões de famílias necessitam moradia. O problema de moradia está ligado à terra. No Brasil a posse de terra sempre foi privilégio dos ricos, mentalidade iníqua que persiste.
O poder econômico é excludente. Para ele a cidade é um negócio, não lugar de convivência e interação entre pessoas. Ele dificulta as ações em favor dos sem teto e as políticas públicas que possibilitem casa para todos. Agravando tudo isto, temos a especulação imobiliária favorecida visando lucro a todo custo. Os sem teto acabam empurrados para as ruas, os morros, beira de rios e aqui entre nós áreas de preservação ambiental.
Moradia para todos é um direito garantido pela Constituição Federal (cf. Art. 6), e é a porta de entrada para todos os outros direitos da cidade e cidadania. Moradia é vida! Não podemos nos esquecer que a casa é o lugar da família: é o lar!
Lembremos o nascimento de Jesus em Belém. O Filho de Deus veio morar entre nós. Não havia lugar para ele, não havia uma casa para receber Maria e José. Jesus teve que nascer em uma gruta no meio de animais, na beira da cidade.
Esta dura realidade de nosso Senhor, que entra no mundo e nasce sem teto, além de nos questionar, é um convite para nos empenharmos, a fim de que todos tenham casa em um país tão grande como o nosso, no qual não falta terra, mas justiça.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André
