A chuva mudou o início da programação do 32º Grito dos Excluídos e Excluídas do ABCDMRR, realizado no dia 7 de setembro, em Rio Grande da Serra. A concentração aconteceu no salão da Paróquia São Sebastião, onde iniciou-se com a apresentação cultural que abriu a quinta edição diocesana do Grito.
Na sequência, os participantes seguiram para a igreja, onde Dom Pedro Carlos Cipollini presidiu a Santa Missa. Ao iniciar a homilia, o bispo explicou que a Eucaristia era também uma manifestação de fé. Em meio aos conflitos vividos no Brasil e no mundo, fazer memória de Jesus Cristo é reafirmar a esperança.
A partir do Evangelho, Dom Pedro recordou a cura do homem que tinha uma das mãos paralisada. Segundo a interpretação apresentada pelo bispo, o braço direito representava a misericórdia e o esquerdo, a justiça. Ao devolver o movimento àquele homem, Jesus mostrou o que faltava naquela sociedade.
“Uma justiça sem misericórdia é o que faz uma sociedade dividida, com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. É uma economia sem coração”, afirmou.
Dom Pedro reconheceu a importância das ações de caridade realizadas pelas comunidades, mas observou que as estruturas e as leis também precisam alcançar aqueles que mais necessitam. Ao falar sobre as pessoas que vivem nas ruas, alertou: “São os excluídos. É uma sociedade que planeja sem misericórdia”.
Para o bispo, a justiça de Deus oferece a cada pessoa aquilo de que ela necessita. A fome, a violência, a miséria e a falta de moradia geram sofrimento e morte. “O Deus que se revela na Bíblia e nos Evangelhos é o Deus da vida. Eu vim para que todos tenham vida e vida plenamente”, recordou, pedindo a conversão dos corações para uma sociedade mais justa e fraterna.
Antes da bênção final, padre Ryan Holke, vigário episcopal para a Caridade Social, agradeceu a presença de Dom Pedro, dos movimentos sociais, das autoridades e das diferentes comunidades de fé envolvidas na preparação.
“O processo acaba, às vezes, tornando-se mais importante do que o próprio ato, porque é nele que estreitamos os laços. Quando surgem as dificuldades, nós nos conhecemos, conversamos e vamos em frente juntos”, afirmou.
Ainda durante a conclusão da Missa, foi lida e entregue a Dom Pedro a carta “Defesa da vida, da Casa Comum e das comunidades de Rio Grande da Serra”. O documento reafirma o compromisso com a terra, a paz, a moradia, as mulheres, a soberania e a justiça social.
A carta manifesta preocupação com as obras de transposição do Rio Pequeno, afluente da Bacia Billings, e com os possíveis impactos sobre as nascentes e os bairros da cidade. O texto pede transparência nos estudos ambientais, participação popular e fiscalização do cumprimento da legislação.
Depois da Missa, Amaury Monteiro Jr. abriu as falas com uma aula pública. Engenheiro civil, professor e integrante de movimentos em defesa do meio ambiente, ele abordou a proteção dos mananciais, a participação da população nas decisões e os impactos que grandes intervenções podem causar na vida das comunidades de Rio Grande da Serra.
As manifestações prosseguiram a partir dos cinco eixos do Grito. Ao falar sobre a terra, Neide de Cássia Aliandro, da Pastoral Afro-Brasileira, recordou que a população negra ainda sofre as consequências de uma abolição inacabada. Ela apresentou os quilombos como espaços de resistência e vida comunitária e falou sobre as famílias que permanecem privadas do direito à terra e à moradia digna.
No eixo da paz, Vilma Amaro, do Sindicato dos Jornalistas e do Comitê ABC pela Palestina, abordou a situação do povo palestino e recordou o apelo do Papa Leão XIV pelo diálogo e pela diplomacia na resolução dos conflitos.
José Soares da Silva, do Movimento em Defesa da Vida do ABC, também falou sobre a paz e relacionou os conflitos à defesa da água e do meio ambiente. Ele lembrou que, em diferentes partes do mundo, a disputa pelos recursos naturais atinge principalmente as populações mais pobres.
A moradia foi abordada pelo diácono João Ribeiro, assessor do Vicariato Episcopal para a Caridade Social. Ele afirmou que uma casa não pode ser tratada somente como mercadoria, pois a moradia é um direito assegurado pela Constituição.
O diácono também falou sobre a retomada da Pastoral da Moradia e Favela na Diocese de Santo André, que pretende caminhar ao lado das comunidades e dos movimentos sociais. “Terra, trabalho e teto. Moradia digna para todos”, proclamou.
João Batista, do Movimento Nacional da População de Rua, lembrou que morar com dignidade não significa apenas possuir uma casa. É necessário ter acesso ao transporte, à escola, à saúde e à segurança. Ele também chamou a atenção para a falta de políticas habitacionais destinadas às pessoas que vivem nas ruas.
No eixo Mulheres Vivas, Jô, integrante da Frente Regional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Grande ABC, alertou para os casos de feminicídio e estupro de vulneráveis. Ela defendeu políticas públicas de prevenção e medidas que protejam efetivamente as mulheres vítimas de violência.
Maria Carolina Martins, da Comissão de Justiça e Paz e do Conselho Feminino da Diocese, falou sobre a dignidade que pertence a toda pessoa, independentemente de sua profissão, maternidade, estado civil ou idade.
“Acolher é, muitas vezes, saber permanecer ao lado, escutar com atenção, acreditar em sua palavra, respeitar seu tempo e ajudá-la a encontrar caminhos seguros”, afirmou. Maria Carolina também recordou que as mulheres possuem voz, história e capacidade de participar da transformação da sociedade.
As reflexões sobre a soberania foram conduzidas por Xico Bezerra e Daniel Monteiro Lima. As falas abordaram a defesa do Brasil e dos povos da América Latina diante de interesses econômicos e políticos externos. Também recordaram que a soberania está ligada à proteção dos recursos naturais, da democracia e dos direitos da população.
O ato inter-religioso encerrou as atividades tendo a água como símbolo comum. Maria Cândida, da Pastoral Afro-Brasileira, conduziu o início do momento, recordando que não existe vida sem água.
O pastor Jeziel Marcos Correia da Silva falou sobre a Bíblia como instrumento de resistência nas mãos de Nelson Mandela, Martin Luther King e do pastor negro brasileiro Agostinho José Pereira. Ao recordar o encontro de Jesus com a mulher samaritana, explicou que Cristo reconheceu sua necessidade e pediu água justamente a uma mulher pertencente a um povo discriminado.
“Quando eu tive fome, me deste de comer. Quando eu tive sede, me deste de beber e, quando eu estava desabrigado, me acolheste”, recordou o pastor ao relacionar a fé ao cuidado com os mais vulneráveis.
Wera Poty, da Aldeia Guyrapá-Ju, falou sobre o luto de seu povo após a morte de sete pessoas em um acidente. Ele afirmou que a riqueza dos povos indígenas está na natureza, nas nascentes e no ar puro, e apresentou a canção “Pindorama”.
A ialorixá Adriana T’Ọmọlú explicou o significado da água para os povos tradicionais de matriz africana. “Água abençoa, água purifica”, afirmou. Ela também pediu respeito à ancestralidade e aos povos que ainda enfrentam preconceito por causa de suas tradições.
O sheikh Hossein Khaliloo falou sobre a responsabilidade dada pelo Criador ao ser humano de cuidar da natureza. Para ele, preservar o meio ambiente é também proteger a vida humana, considerada sagrada.
Padre Ryan participou novamente da reflexão, desta vez recordando a passagem do livro de Ezequiel na qual uma fonte nasce no templo e leva vida por onde passa. “Quando lutamos pela dignidade humana, reconstruímos aquilo que guarda o que há de sagrado em cada um”, afirmou.
O sacerdote encerrou convidando os participantes não somente a lutar, mas também a plantar e cuidar para que possa nascer um mundo mais justo e fraterno para todos os filhos e filhas de Deus.








