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Diocese de Santo André

Pastoral do Povo da Rua aprofunda espiritualidade do serviço e o encontro com Cristo nos mais pobres

O encontro contou com a presença da coordenadora diocesana da pastoral, Jaqueline Pereira, do diácono assessor Marco Antônio Ernandez, além dos diáconos Renan Evangelista e Sandro Bermudes. O encerramento foi com a adoração ao Santíssimo Sacramento, conduzida pelo Pe. Rafael Capelato, pároco da Bom Jesus de Piraporinha e vigário forâneo de Diadema.

Na acolhida, o diácono Marco agradeceu a presença dos agentes e recordou a importância daquele tempo para quem está diariamente envolvido com o serviço junto às pessoas em situação de rua.

Jaqueline também acolheu os participantes e falou sobre a presença da pastoral nas sete cidades do Grande ABC. Lembrou que, mais do que distribuir alimentos, roupas ou fazer encaminhamentos, o trabalho passa pelo encontro, pela escuta e pelo reconhecimento da dignidade de cada pessoa.

A primeira formação foi conduzida pelo diácono Renan Evangelista, que refletiu sobre a opção preferencial pelos pobres e a relação entre fé e compromisso com aqueles que estão à margem. Para ele, esse serviço não pode ser compreendido apenas como mais uma atividade dentro da Igreja. “Não somos nós que vamos levar Cristo ao pobre. É Cristo que se manifesta a nós como pobre”, afirmou.

Ao longo da reflexão, Renan recordou que a atenção aos pobres faz parte da vida da Igreja desde as primeiras comunidades cristãs e chamou os agentes a não separarem aquilo que celebram daquilo que vivem. Falou também sobre a forma de olhar para quem sofre: “Os pobres não precisam da nossa pena, mas da nossa compaixão.” A compaixão, explicou, não coloca o outro numa posição inferior — exige proximidade e disposição para conhecer a história de quem está diante de nós.

Renan lembrou ainda que o trabalho junto às pessoas em situação de rua muitas vezes confronta preconceitos, desigualdades e até incompreensões dentro da própria comunidade cristã, e que quem sai para servir também é tocado pelo encontro. “Nós somos evangelizados por eles”, resumiu.

Na sequência, o diácono Sandro Bermudes conduziu a segunda formação, partindo do Evangelho de Marta e Maria. “Nós precisamos ser Marta e precisamos ser Maria”, disse. A partir da passagem, falou sobre um risco muito concreto: o de o agente se ocupar tanto com o serviço que deixa de reservar tempo para a oração, a formação e a convivência.

Contou que, ao chegar à Forania Mauá, procurou conhecer o trabalho das pastorais e perguntou a um grupo quando aconteciam as reuniões. A resposta foi que não havia tempo para reunir: os agentes se encontravam apenas para preparar as marmitas e sair em missão. Para ele, quando isso se repete por muito tempo, o serviço pode entrar no automático. “A caridade cristã precisa ir muito além daquilo que entregamos. A caridade começa no nosso coração e se manifesta através das nossas atitudes.”

Sandro contou ainda uma experiência vivida em 2022, quando um grupo de jovens preparava marmitas para pessoas em situação de rua. Durante uma das entregas, uma mulher recebeu sua marmita, chamou uma das jovens e perguntou se poderia pedir mais uma coisa. A jovem imaginou que fosse água ou outra marmita, mas ouviu: “Eu queria um abraço.” A jovem a abraçou, e as duas ficaram assim por um tempo. “Às vezes a gente tem que sair um pouquinho do que nós estamos fazendo e enxergar o nosso irmão e a nossa irmã”, comentou.

A história ajudou a conduzir outra parte da formação: a necessidade de olhar para a pessoa antes de olhar para a situação em que ela se encontra. Sandro perguntou aos agentes: “Será que conhecemos a história daquela pessoa? Será que sabemos quais portas se fecharam? Será que sabemos quantas vezes ela tentou recomeçar?” Falou sobre os julgamentos que ainda recaem sobre quem vive nas ruas e lembrou que cada pessoa carrega perdas, escolhas, dores e histórias que nem sempre aparecem num primeiro contato. “O pobre não é um problema para ser resolvido, mas um irmão ou uma irmã para ser acolhido.”

Por isso, explicou, uma cesta básica pode ser necessária, mas não encerra o encontro — às vezes é preciso perguntar como a pessoa está, ouvir e perceber se existe outra necessidade. “A caridade é presença.”

Sandro também falou sobre o desgaste de quem serve: a dificuldade de conseguir recursos, o cansaço, a frustração e a sensação de não conseguir resolver determinadas situações. “Quem salva é Jesus. Nós somos apenas instrumentos.” Para ele, reconhecer os próprios limites também faz parte da espiritualidade — o agente faz aquilo que pode, mas não pode carregar sozinho todas as dores que encontra. “Quem serve por amor a Cristo não entrega apenas aquilo que tem, entrega aquilo que é”, concluiu.

Antes da adoração, alguns agentes também partilharam experiências vividas nas ruas. Foram testemunhos de quem, no serviço, já encontrou histórias de abandono, fome, dependência, solidão, mas também situações em que um gesto simples foi suficiente para criar vínculo e proximidade.

No fim da tarde, os participantes seguiram para a igreja, onde participaram da adoração ao Santíssimo Sacramento. Na meditação, o Pe. Rafael Capelato retomou o capítulo 25 do Evangelho de Mateus, quando Jesus se identifica com quem teve fome, sede, estava nu, doente ou era peregrino. Recordando uma frase de São João da Cruz, afirmou que “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor”. “O amor será o critério. Todas as vezes, em resumo, que amastes o pequenino, meu irmão, a mim amastes.”

Pe. Rafael falou ainda sobre a caridade como algo que pertence à própria identidade da Igreja. “Meus irmãos e irmãs, nós somos chamados como Igreja a servir a Cristo no irmão, amando como o próprio Cristo nos amou.” Recordou a experiência das primeiras comunidades cristãs, que colocavam seus bens em comum e procuravam não deixar necessitados entre eles: “Isto está no DNA da Igreja.”

Durante a meditação, fez também uma distinção entre filantropia e caridade cristã. Para o sacerdote, a ajuda social realizada por empresas, instituições ou pelo poder público tem seu valor, mas a caridade cristã nasce de outra motivação. “Este amor tem como distintivo a gratuidade. É um amor livre, que não espera nada em troca, por amor a Cristo e pela dignidade do ser humano, todos filhos e filhas de Deus.”

Ao final, Pe. Rafael voltou o olhar para a missão da própria pastoral: “Que possamos, pelas ruas, pelos bairros, pelas praças do nosso inteiro Grande ABC, levar o amor de Cristo a todos indistintamente, levando com o pão, com a roupa, o amor, a dignidade, o Evangelho da vida.”

A adoração encerrou uma tarde que começou falando sobre o serviço e terminou diante da Eucaristia. Para os agentes, ficou o chamado de continuar nas ruas com aquilo que a pastoral já faz todos os dias: levar alimento, roupa e orientação, sem esquecer do que não cabe numa sacola, a escuta, o respeito, a presença e a capacidade de reconhecer Cristo em quem está diante deles.

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