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Diocese de Santo André

“Nada substitui o contato pessoal”: encontro diocesano reúne professores para refletir sobre educação e inteligência artificial

A missão de ensinar, os desafios da educação e o uso da inteligência artificial no ambiente escolar foram assuntos de um encontro promovido pela Pastoral da Educação e Universitária da Diocese de Santo André, no sábado, 17 de outubro, no auditório da Cúria Diocesana. A atividade reuniu mais de 100 professores e educadores para uma tarde de formação, partilha de experiências e reflexão sobre o papel de quem dedica a vida ao ensino.

Organizado pela pastoral, coordenada por José Ricardo e Kevin, com assessoria do Padre Júlio Miguel da Silva, o encontro teve início com um momento de oração. Na sequência, José Ricardo apresentou o bispo diocesano, Dom Pedro Carlos Cipollini, recordando que a Igreja, como ensinou São João XXIII, é mãe e mestra. Inspirado também em São Paulo VI, lembrou que o testemunho de vida é parte essencial da missão de ensinar, pois as pessoas escutam os mestres quando reconhecem neles verdadeiras testemunhas.

Em sua mensagem aos professores, Dom Pedro recordou sua própria experiência no magistério e expressou a alegria de ver a Pastoral da Educação se articulando na Diocese. Para o bispo, poucos profissionais exercem uma influência tão duradoura na vida das pessoas quanto os professores.

“A influência de um professor na vida de um educando é para toda a vida. Quem de nós aqui não se lembra de algum professor?”, questionou.

A reflexão aconteceu poucos dias após o Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, data em que a Igreja faz memória de Santa Teresa de Jesus, também conhecida como Santa Teresa de Ávila. Dom Pedro recordou a contribuição da santa, que, por meio de seus escritos, transmitiu ensinamentos que atravessaram os séculos.

Ao diferenciar o professor do mestre, o bispo explicou que a missão de educar vai muito além da transmissão de conhecimentos. Ela envolve a formação intelectual, moral e ética, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

“Não podemos nos iludir que tudo se resolverá com a internet, que a inteligência artificial vai responder a tudo. Não. Nada substitui um contato pessoal, como na sala de aula, entre professor e aluno”, afirmou.

Dom Pedro também reconheceu as dificuldades enfrentadas diariamente pelos educadores, especialmente diante das transformações sociais e dos desafios de motivar os estudantes. Ao concluir, incentivou os presentes a não desanimarem e a permanecerem firmes em sua missão, cultivando a fé, a coragem e o compromisso com a formação humana.

“Parabéns a todos vocês, professores e professoras. Nossa Igreja tem orgulho de vocês, que são, sem dúvida, heróis e heroínas no vosso ofício, que é uma missão”, expressou.

Após sua participação, o bispo entregou à pastoral um subsídio formativo da Diocese sobre acolhida e missão, relacionando a importância do cuidado pastoral ao trabalho diário dos professores.

Na continuidade da formação, José Ricardo conduziu uma reflexão a partir da encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. A apresentação abordou três desafios da educação contemporânea: o sociopolítico, relacionado às desigualdades no acesso ao ensino; o pedagógico, que exige uma formação integral; e o intelectual e sapiencial, diante do excesso de informações e da necessidade de cultivar o discernimento.

Para aproximar o conteúdo da realidade dos participantes, José Ricardo utilizou imagens relacionadas ao cultivo da terra e convidou os educadores a pensar na própria missão. Assim como preparar a terra exige trabalho paciente, educar também requer dedicação, cuidado e disposição para acompanhar o crescimento de cada pessoa, mesmo quando os frutos não são percebidos imediatamente.

Entre as reflexões, levantou uma pergunta que atravessa o cotidiano escolar: “Como que a gente transforma tudo isso em sabedoria de vida?”. A partir dela, convidou os professores a reconhecer que ensinar também significa ajudar os estudantes a compreender o mundo e a encontrar sentido naquilo que aprendem.

O coordenador ainda relacionou os ensinamentos do Papa à necessidade de acolher cada aluno em sua realidade, respeitando sua história, sua família e suas particularidades. Ao refletir sobre a educação na era digital, recordou o chamado da Igreja para que os educadores sejam artesãos da formação humana, capazes de unir conhecimento, responsabilidade e cuidado com o próximo.

A última reflexão foi conduzida por Kevin, também coordenador da pastoral, professor da rede estadual de ensino e mestrando em Linguística pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com o tema “A inteligência artificial como ferramenta assistiva ao professorado”, ele apresentou possibilidades práticas de utilização da tecnologia para facilitar o trabalho docente.

Kevin compartilhou sua experiência na educação pública e chamou a atenção para a sobrecarga de trabalho dos professores, que frequentemente precisam dividir seu tempo entre as aulas, os planejamentos pedagógicos, as correções e as demandas administrativas.

A partir dessa realidade, apresentou exemplos de como a inteligência artificial pode contribuir para otimizar tarefas, organizar materiais de estudo e auxiliar na correção de textos. Em uma das experiências relatadas, explicou como o uso da ferramenta permitiu reduzir significativamente o tempo necessário para elaborar planejamentos pedagógicos.

Ao mesmo tempo, advertiu que a tecnologia não deve substituir o pensamento crítico nem a responsabilidade do educador.

“A inteligência artificial não vai te auxiliar a acolher as dores dos nossos alunos. A inteligência artificial não vai te auxiliar no contato direto que você vai ter com o seu estudante. Não é o papel dela fazer isso”, explicou.

O professor também chamou a atenção para a diferença entre buscar respostas prontas e construir conhecimento. Durante sua apresentação, propôs uma atividade prática utilizando o ChatGPT como apoio à leitura, à organização de citações e à elaboração de perguntas para revisar conteúdos estudados.

A proposta mostrou que, quando utilizada com discernimento, a inteligência artificial pode ser uma aliada do professor, permitindo dedicar mais tempo àquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir: a relação humana e o acompanhamento dos estudantes.

O encontro também esteve em sintonia com o Pacto Educativo Global, iniciativa lançada pelo Papa Francisco, que convida famílias, escolas, universidades, instituições e comunidades a assumirem uma responsabilidade compartilhada pela educação, colocando a dignidade humana no centro dos processos formativos.

Ao reunir profissionais da educação para refletir sobre os desafios de seu tempo, a Pastoral da Educação e Universitária reafirmou seu compromisso de aproximar a Igreja daqueles que diariamente contribuem para a formação das novas gerações. Uma missão que, mesmo diante das transformações tecnológicas, continua encontrando seu sentido mais profundo no cuidado com cada pessoa.

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