Hoje nesta coluna empresto o espaço para um belíssimo texto do Papa Leão XIV, sua mensagem aos idosos e avós. Vai de encontro à preocupação com o crescente número de idosos no Brasil e a situação difícil que vivem:
Queridos irmãos e irmãs,
Pela boca do profeta Isaías, o Senhor promete que nunca se esquecerá de nenhum de nós. Assegura-nos que traz os nossos rostos gravados nas palmas das mãos (cf. Is 49, 16) e que o seu amor é maior do que o de uma mãe pelo seu filho (cf. Is 49, 15). O profeta permite-nos vislumbrar um diálogo íntimo e intenso, no qual Deus se dirige a cada um e ao próprio povo, tratando todos por “tu”. Também, hoje, podemos ler referidas a nós estas palavras, e cada um pode ouvir aquele “nunca te esquecerei” dirigido a si mesmo.
Trata-se de palavras que enchem de consolação e confiança. São a resposta a um sentimento angustiante que agita o coração: «O Senhor abandonou-me, o meu senhor, esqueceu-se de mim» (Is 49, 14). O amor de Deus, que, pelo contrário, não esquece ninguém, oferece-se como um ato de justiça e uma resposta ao anonimato, no qual, com demasiada frequência, a vida humana acaba por perder-se. Sobre a existência de muitos idosos, em particular, parece estender-se um véu que esbate as feições dos rostos e relega ao esquecimento. É o que acontece nas casas onde reina a solidão, e também naqueles asilos onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida ao número da sua cama ou à sua doença.
A celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade, descobrir-se filhos e filhas de Deus. Que este Dia seja, portanto, um estímulo para todos, em particular os mais jovens, retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e também aqueles que não recebem nenhuma visita.
Fazei com que as palavras do profeta “Eu nunca te esquecerei” assumam a forma de um encontro terno e afetuoso. Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade.
A Igreja conhece o sofrimento dos seus filhos mais idosos, sabe bem que demasiadas vezes se olha para eles com preconceitos e são considerados um fardo; está ciente de que uma economia centrada no lucro enfraquece os laços familiares; sabe que muitos idosos são abandonados pelos filhos, obrigados a migrar ou, nalguns casos, a combater na guerra.
Em qualquer idade da vida, mas especialmente quando já não somos jovens, é gratificante descobrir, como disse o Beato João Paulo I, que somos destinatários «da parte de Deus, dum amor que não se apaga. Deus tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é papai; mais ainda, é mãe» para nós. Embora não seja espontâneo pensar assim, a verdade é que, mesmo na velhice, não deixamos de ser filhos e filhas, e por isso permanece válido, todos os dias, o convite a regressar aos braços de Deus, cujo amor é paternal e maternal ao mesmo tempo.
Para muitos, a descoberta da ternura de Deus, no decorrer da vida, acontece precisamente na sua última etapa, na velhice. Cada vez mais, na realidade, ao contrário do que acontecia no passado, hoje é possível chegar à velhice, sem ter tido uma verdadeira experiência de fé. Neste caso, a idade avançada, a partir das questões que nesta fase da vida se colocam com maior premência, pode tornar-se o momento oportuno para iniciar ou retomar a vida espiritual.
Neste novo caminho, pode-se reconhecer que Deus, como diz Santo Agostinho, «é mãe porque aquece, porque alimenta, porque amamenta, porque protege» (Comentário ao Salmo 26, II, 18). É uma consciência que ajuda a não sentir vergonha da fragilidade que vai surgindo e também a compreender que todos precisamos, sempre, uns dos outros e somos mendigos de atenção e cuidado. A Deus, que se faz próximo e que aprendemos a reconhecer na sua ternura, podemos então dirigir-nos com confiança filial na oração. Nunca é tarde demais para a Ele nos dirigir. Pode ser um grande dom para todos.
Queridos idosos e idosas, o Papa Francisco referiu-se a vós como um “novo povo” (Catequese, 23 de fevereiro de 2022), uma vez que o número de pessoas de idade avançada nunca foi tão elevado na história da humanidade. Sinto-me no dever de vos dizer: não tenhais medo da fragilidade! É justamente esta fraqueza que esconde em si uma nova potencialidade que ilumina também as outras idades da vida. Efetivamente, quando é aceita e reconhecida, a fragilidade abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz.
É assim que podemos viver, como cristãos, o tempo da velhice: “frágeis” e, simultaneamente, “chamados”. Na verdade, um homem e uma mulher podem renascer na velhice (cf. Jo 3, 4-6) e reconhecer, com o profeta: «A vossa salvação está na conversão e em terdes calma; a vossa força está em terdes confiança» (Is 30, 15). Uma força que, para garantir a convivência humana, pode tornar-se convite a não recorrer aos caminhos da arrogância e do poder, mas aos caminhos da reconciliação e da verdadeira paz.
Neste nosso tempo, marcado de forma tão dura pela violência bélica e social, muitos questionam-se sobre como será o mundo em que crescerão os próprios netos. Convido-vos, para que vos unais comigo numa incessante oração para que a paz chegue em breve a todo o mundo. Irmãs e irmãos idosos, agradeço-vos por me apoiardes todos os dias com as vossas orações, especialmente quando recitais o terço. Retribuo-o de coração, deixando-vos este desejo: que o Senhor nos renove sempre na fé, na esperança e na caridade, Ele que nunca se esquece de nós! Vaticano, 15 de junho de 2026. Papa Leão XIV.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André
