Artigo DGABC – 21/3
Dom Pedro Cipollini – Bispo de Santo André
E a crise vai se avolumando, infelizmente. Ninguém pode negar que estamos em crise. É uma crise política que se reflete na economia e no social. As duas são a meu ver frutos de uma grande crise ética e moral, crise esta que que vem de longe e que recrudesceu nos últimos anos. A luta pelo poder é acirrada e a cada dia podemos constatar que o poder pelo poder corrompe.
É certo que a pobreza e a miséria devem ser combatidas, mas não se pode justificar a violência que toma conta da sociedade, com a injustiça social a ser combatida. De repente estamos em meio a uma situação, onde alguns parecem pregar que toda propriedade privada seja um roubo, roubo que justifica todos os outros. A corrupção se instalou de alto a baixo na sociedade. Por sorte as tentativas de justificá-la estão sendo combatidas, inclusive pela operação “Lava-Jato”. A partir do momento histórico que vivemos, que nos seja permitido avançar na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
À medida que a crise se torna aguda, com o desemprego aumentando e a diminuição de recursos básicos, inclusive na saúde, perguntamos: o que fazer? É certo que medidas práticas na área da gestão econômica devem ser tomadas. Porém, para vencer a crise de credibilidade, o desânimo e a falta de perspectivas que assombram a sociedade, não basta lamentar-se. É preciso levantar a cabeça, olhar para frente, com esperança.
A racionalidade econômica se impõe e busca estabelecer-se como única saída aceitável para solucionar os problemas mais urgentes que temos. Aí o lucro torna-se o único critério de decisão. É a “religião econômica” do deus dinheiro, cuja liturgia a ser celebrada é o consumo. A “religião econômica”, a idolatria do deus dinheiro, dizem, deve produzir a salvação que segundo o economista W. Jevons, consiste em “satisfazer nossos desejos no grau máximo, com o mínimo de esforço para assim maximalizar o prazer”.
Tudo isto já existe, está em curso. Porém, não soluciona-se o drama humano assim. Sem Deus o homem não se explica, se complica. Uma sociedade que rejeita a ética do amor fraterno não sai da crise. A invocação de amar o próximo como a si mesmo, assim como ensinou Jesus, é um dos preceitos fundamentais da vida civilizada. “O amor próprio é uma questão de sobrevivência, e a sobrevivência não precisa de mandamentos…” porém, “Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade” , afirma Z. Bauman em sua obra conhecida (cf. Amor líquido pp. 98-99). A superação da crise passa pelo cumprimento dos mandamentos de Deus, sintetizados no mandamento do amor.
O amor começa com Deus e é transmitido a nós por Jesus Cristo, seu Filho. Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único para salvá-lo (cf. Jo 3,16). Em Jesus, Deus entra na História para salvar a humanidade do pecado, que se expressa no egoísmo gerador de morte. Ao não compactuar com o sistema de idolatria deste mundo, sem Deus e sem ética (porque sem fé no amor) Jesus teve a sorte de todos os que o rejeitam: a morte. Jesus aceitou conscientemente a morte, mesmo podendo livrar-se dela. Mas entrando na morte ele a fez implodir. Venceu a morte e deu-nos a vida. É este o cerne do mistério cristão que celebramos na Semana Santa: o Mistério Pascal: Morte e Ressurreição, que ensina a superação das crises.
Que Deus abençoe nosso Brasil e nos dê esperança. A Páscoa é festa de libertação, passagem da escravidão para a liberdade, das trevas à luz. Que tenhamos uma boa e feliz Páscoa!#