Nossa realidade é maravilhosa do ponto de vista tecnológico, mas dramática do ponto de vista das relações humanas. Aumentam a violência, especialmente no trânsito, feminicídio, corrupção, pobreza e fome, em meio a guerras que não acabam. Impõe-se uma reflexão sobre a esperança. Ela é possível?
Existe um mito da Grécia antiga, que se transformou numa expressão ou metáfora da cultura popular, trata-se da “Caixa de Pandora”, primeira mulher mortal a surgir na Terra. Quando ela abre esta caixa, desencadeia todo tipo de desgraças que saem dela. No entanto, são poucos que se recordam da última parte da narrativa deste mito. Junto com as desgraças, por fim, um minúsculo dom parece esquivar-se diante do que se espalha pelo mundo. É o último que resta lá dentro e que parece tão frágil, é a esperança.
Este mito vem demonstrar que a esperança é que pode reverter as desgraças que se espalharam com a abertura da caixa de Pandora. De fato, existem alguns ditados que a sabedoria popular cultiva: “onde há vida há esperança”, “a esperança é a última que morre etc.
É a esperança que sustenta a vida, a protege e preserva fazendo-a crescer. Foi a esperança que impulsionou a evolução da história humana sobre a Terra. A esperança é algo divino a existir no coração humano. Santa Teresa de Calcutá, que viveu em meio a miseráveis lhes transmitindo esperança, deixou escrito; “O dia mais bonito? Hoje. O maior obstáculo? O medo. A coisa mais fácil? Enganar-se. O maior erro? Renunciar…”. Só alguém movido por uma esperança imbatível poderia ter escrito isto.
O escritor Charles Péguy, poeta francês, relata que Deus não se surpreende com a fé dos seres humanos, a qual responde à evidência do que resplandece na criação. Tampouco com a caridade, o amor, pois o ser humano tem sede de amar e busca o amor. O que comove o coração de Deus é a esperança. Ele compara a fé a uma esposa fiel, a caridade a uma mãe, a esperança, porém, é uma menina que vai levando a esposa e a mãe pelas mãos. Esta menina atravessa o mundo em conflito, guerras, desastres, levando pelas mãos a fé e a caridade. Isto porque esta menina vê o futuro, o que será e virá no fim. E no fim da história triunfará a bondade: Deus triunfará com sua misericórdia.
Assim, a esperança cristã é uma virtude humilde e forte ao mesmo tempo que sustenta e nunca deixa que nos afoguemos nas dificuldades da existência. Ela é força para resistir no presente com coragem e capacidade de olhar para o futuro sem medo. Precisamos estar sempre prontos a dar os motivos de nossa esperança, escreve o apóstolo Pedro (1Pr 3,15). Em meio ao desespero que parece ser uma característica de nossa época, porque a ética do instante liquida o futuro, é preciso falar da esperança que Jesus transmitiu a seus seguidores. São Paulo escreve que a vocação do cristão é manter a esperança viva no mundo: “Fomos chamados à esperança” (Ef 4,4).
Somente quem tem esperança pode acender as duas lâmpadas que iluminam o mundo: a lâmpada da piedade que permite ver a Deus e o próximo com misericórdia, e a lâmpada da justiça que faz empenhar-se pelo bem comum. Por isso o poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa, escreveu: “Do alto da torre da igreja. Vê-se o campo todo em roda. Só do alto da esperança; vemos nós a vida toda”.
+Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André
